#ONFS

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Sobre escape

Segurou a morte com o cantinho dos lábios,
Sua alma, como fumaça, escapava de mansinho.
- É assim - ele dizia - Que feridas são curadas.
Agora descansa. Eu vou ficar só um pouquinho.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Sobre o pequeno tempo

Tempo...
Se eu pudesse dizer o quanto eu tento
Apressar o passo e, ao mesmo tempo,
Te fazer voltar atrás.

O tempo...
Se eu pudesse dizer o quanto eu tento,
Enquanto você fala "Eu entendo",
Eu te dizer que "Tanto faz".

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Dia de chuva

Faz dançar os varais esse vento serelepe,
Quando a chuva ele precede, já se arruma em cobardia.
"Lá vem o temporal, mas ele que não se apresse",
A vizinhança que faz prece, lavando os panos do dia a dia.

Mas as nuvens chegam raivosas: "Quem é que desobedece,
Estende roupa quando acontece o festim da chuvarada?".
O rebolar da tormenta arranca os panos da corda,
Bandeirolas voando embora e a vizinhança na caçada.

"Pega os panos, Dona Nice!", "Olha as roupas do Seu Lau!",
Sob o aguaceiro a traquinice: caça ao tesouro ou ao varal?
E dizem: "As nuvens são como arcas que vazam gotas de cristal",
A vizinhança, assim, animada com a chuvarada no quintal.

(Poema publicado na ediçao nº32/2016 da Revista Cabeça Ativa).

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Sobre atlas

Nos campos grandes do Sul
Um navegante solitário,
De mau tempo embriagado,
Entre ondas, sem destino.

A solidez dos passos,
Um mero atlas de acasos,
Ao interpretar errado
O desenrolar do caminho.

As chagas do céu
Que se acendem na noite,
Desenham-se como os açoites
Marcados em seu corino

De mil naufrágios previstos
Pelos mapas estelares,
A revelar o destino
Do navegante perdido.

"Não hei de crer na sabedoria" - diz -
"Dos astros milenares
Que, apesar dos pesares,
São vãs em seus tinos,

Nem no bater das ondas
Quem me afogam em maldades,
Como se merecedor de uma eternidade
De azares desmedidos".

"Quando me dizem que fique,
Respondo às ondas inconstantes,
Que, antes de tudo, sou errante,
Pouco importam os desatinos.

Mas se me dizem para partir
O faço num instante,
Que, na condição de navegante,
Vivo no meio do caminho".

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Sobre aquele dia

Ainda lembro do dia em que ela se foi:
Disse adeus e não esperou,
Disse adeus e nunca mais voltou,
Disse adeus e não se despediu.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Sobre o ano de ler mulheres

Deparei-me hoje, na página virtual do jornal El País Brasil, com uma postagem cujo título me chamou muito a atenção. ""Homem ganha prêmio de literatura", a manchete que você nunca vai ler", dizia o título, sob uma imagem de Alice Munro, ganhadora do Nobel de Literatura em 2013. Os 09 parágrafos da notícia eram um relato sobre o sexismo dentro da literatura e dos grandes prêmios referentes, exemplificando com o próprio Prêmio Nobel, "normalmente" dado a homens romancistas. O prêmio é entregue todos os anos desde 1901 e, desde então, só 13 mulheres foram agraciadas com ele. A entrega do prêmio a Alice Munro, contista, é uma quebra do padrão. Apesar disso, aqui no Brasil, o prêmio SESC de Literatura, graça dada a autores ainda não publicados, vem dando destaque a elas há alguns anos. Em 2015 ele foi entregue a duas mulheres, Sheyla Smanioto na categoria Romance, e Marta Barcellos na categoria ContosEsse debate acerca do machismo na literatura pode até parecer, então, um discurso de coitadismo, mas não é. Apesar de vermos cada vez mais mulheres se destacando nesse cenário, a relação de gênero ainda é muito proeminente, como fala a autora Luisa Geisler, também vencedora do prêmio SESC em 2010 e 2011. Ela conta já ter ouvido frases como "não achei que mulheres podiam escrever assim", o que demonstra o grande preconceito que ainda existe contra as autoras. Já tive a oportunidade de ler outros textos em anos anteriores que já falavam sobre o assunto, completando suas informações com números, estatísticas, e relatos da desconfiança do leitor diante de um nome feminino na capa do livro. Por algum motivo os leitores se sentem mais seguros de uma boa obra diante de um autor homem, os textos diziam, e eu, envergonhada, percebia quantas vezes já dera vazão a esse preconceito literário sem sentido. O texto no El País, assinado por Camila Moraes, sugeria que o ano de 2018 fosse "O ano de publicar mulheres", chamando as editoras a darem mais espaço às autoras durante aquele ano, uma forma de valorizar e destacar seu trabalho. Reparei, então, na minha lista de leituras para este ano de 2016. Apesar de já ter lido A Capitoa, de Bernadette Lyra, os itens seguintes passavam por José de Alencar, Raphael Montes e Mia Couto, e nenhuma outra autora aparecia. Por que será? Sou uma grande fã de Cora Coralina, mas não planejei nenhum livro dela para este ano. Isabel Allende me encantou com "Amor" no ano passado, e ainda assim não incluí "A Casa dos Espíritos", que venho querendo desde então. Percebi que era hora de prestar mais atenção nisso e, concordando com o texto lido, refiz minha lista de leituras para 2016. Longe de querer menosprezar o trabalho dos homens ou qualquer coisa do tipo, só aproveito o momento para fazer minha parte pelas nossas mulheres tão talentosas. Esse ano, somente elas!
A lista ainda está modesta, mas já inclui:
Vida querida, de Alice Munro (olha ela de novo);
Solombra, de Cecília Meireles;
Solte os cachorros, de Adélia Prado;
Estórias da casa velha da ponte, de Cora Coralina;
Orgulho e preconceito, de Jane Austin;
Ao farol, de Virginia Woolf.
Minha curiosidade sobre os títulos de Mia Couto que ainda não li terá de esperar, mas não tem problema. Agora só aceito sugestões de nomes femininos para completar a lista.
Termino desejando ao mundo a literatura das mulheres, e que saibamos dar valor ao que elas já nos deixaram. Que mais de nós apareçam, com sucesso na escrita e força nas vozes. Que 2018 seja o ano de publicar mulheres, e que todo ano seja ano de lê-las. 

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Sobre o lugar das estrelas

As marcas de nascença nesse corpo arrependido,
Pontos distraídos desenhando Três-Marias,
São chagas pertinentes de um signo desvalido,
De quando a lua em cataclismo nasceu naquele dia.

Fui inverno ao nascimento e sou ainda mais agora,
Esperando cor de aurora que me manche a alma gris.