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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Sobre o ano de ler mulheres

Deparei-me hoje, na página virtual do jornal El País Brasil, com uma postagem cujo título me chamou muito a atenção. ""Homem ganha prêmio de literatura", a manchete que você nunca vai ler", dizia o título, sob uma imagem de Alice Munro, ganhadora do Nobel de Literatura em 2013. Os 09 parágrafos da notícia eram um relato sobre o sexismo dentro da literatura e dos grandes prêmios referentes, exemplificando com o próprio Prêmio Nobel, "normalmente" dado a homens romancistas. O prêmio é entregue todos os anos desde 1901 e, desde então, só 13 mulheres foram agraciadas com ele. A entrega do prêmio a Alice Munro, contista, é uma quebra do padrão. Apesar disso, aqui no Brasil, o prêmio SESC de Literatura, graça dada a autores ainda não publicados, vem dando destaque a elas há alguns anos. Em 2015 ele foi entregue a duas mulheres, Sheyla Smanioto na categoria Romance, e Marta Barcellos na categoria ContosEsse debate acerca do machismo na literatura pode até parecer, então, um discurso de coitadismo, mas não é. Apesar de vermos cada vez mais mulheres se destacando nesse cenário, a relação de gênero ainda é muito proeminente, como fala a autora Luisa Geisler, também vencedora do prêmio SESC em 2010 e 2011. Ela conta já ter ouvido frases como "não achei que mulheres podiam escrever assim", o que demonstra o grande preconceito que ainda existe contra as autoras. Já tive a oportunidade de ler outros textos em anos anteriores que já falavam sobre o assunto, completando suas informações com números, estatísticas, e relatos da desconfiança do leitor diante de um nome feminino na capa do livro. Por algum motivo os leitores se sentem mais seguros de uma boa obra diante de um autor homem, os textos diziam, e eu, envergonhada, percebia quantas vezes já dera vazão a esse preconceito literário sem sentido. O texto no El País, assinado por Camila Moraes, sugeria que o ano de 2018 fosse "O ano de publicar mulheres", chamando as editoras a darem mais espaço às autoras durante aquele ano, uma forma de valorizar e destacar seu trabalho. Reparei, então, na minha lista de leituras para este ano de 2016. Apesar de já ter lido A Capitoa, de Bernadette Lyra, os itens seguintes passavam por José de Alencar, Raphael Montes e Mia Couto, e nenhuma outra autora aparecia. Por que será? Sou uma grande fã de Cora Coralina, mas não planejei nenhum livro dela para este ano. Isabel Allende me encantou com "Amor" no ano passado, e ainda assim não incluí "A Casa dos Espíritos", que venho querendo desde então. Percebi que era hora de prestar mais atenção nisso e, concordando com o texto lido, refiz minha lista de leituras para 2016. Longe de querer menosprezar o trabalho dos homens ou qualquer coisa do tipo, só aproveito o momento para fazer minha parte pelas nossas mulheres tão talentosas. Esse ano, somente elas!
A lista ainda está modesta, mas já inclui:
Vida querida, de Alice Munro (olha ela de novo);
Solombra, de Cecília Meireles;
Solte os cachorros, de Adélia Prado;
Estórias da casa velha da ponte, de Cora Coralina;
Orgulho e preconceito, de Jane Austin;
Ao farol, de Virginia Woolf.
Minha curiosidade sobre os títulos de Mia Couto que ainda não li terá de esperar, mas não tem problema. Agora só aceito sugestões de nomes femininos para completar a lista.
Termino desejando ao mundo a literatura das mulheres, e que saibamos dar valor ao que elas já nos deixaram. Que mais de nós apareçam, com sucesso na escrita e força nas vozes. Que 2018 seja o ano de publicar mulheres, e que todo ano seja ano de lê-las. 

2 comentários:

  1. Olá, Letícia!
    Esse é um debate muito importante, pois durante séculos, muitos espaços foram negados a nós mulheres, e a literatura é um deles. Concordo com tudo o que você disse acima, mas acabei de ver toda a questão por um ângulo novo! Eu já li vários textos sobre esse mesmo assunto, e inclusive escrevi um no meu blog (Se quiser visitar, o link é esse: http://loucura-por-leituras.blogspot.com.br/2015/06/nos-mulheres-na-literatura.html). Mas nunca havia pensado nas minhas escolhas para leitura. Atualmente, quem está na minha lista de futuras leituras são Stephen King, Sidney Sheldon, Edgar Allan Poe, Gabriel García Márquez, entre outros. Mas não me lembro do desejo urgente de ler nenhum livro escrito por uma mulher. Eu tenho planos de ler Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, e também Isabel Allende, mas não são desejos imediatos, como no caso dos homens. Acho que mostrar isso (essa nossa preferência pelos homens) foi o ponto mais importante do seu texto. Pretendo rever também minha lista de novas leituras!
    Parabéns pelo texto, que está muito bem escrito, e também pela crítica.

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    1. Obrigada, Lethycia! É uma coisa que realmente nos passa despercebida. Eu sequer tinha reparado que minha lista de leituras anterior era composta somente por homens. Acabo pensando se isso não corrobora com o menor destaque das mulheres, mesmo que tenhamos autoras tão incríveis por aí, como bem citado nesse texto do seu blog. Agradeço teus elogios, fico feliz que tenhas gostado! Até mais!

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